Jornalismo local e analítico

Opinião
| 19 nov de 2018

Uso dos porquês

I – Por que Jair (?) Jair, nome simples, etimologia do hebraico Ya’ir. Significado? O iluminado por Deus. Apesar da pomposidade do nome, a fácil pronúncia atrai e é convidativa. Da sua fácil pronúncia, nomeamos a primeira parte do que (de quem) os movimentos denominaram de ele, você sabe quem, aquele que não deve ser nomeado ou #elenao. Particularmente, prefiro dar nome às coisas, afinal, toda forma de materialização, crítica, afronta e subversão advém da linguagem. Sem ela (linguagem) a crítica é imaterial, rasa e não ecoa por onde deve ecoar. Muito espanta saber que a esquerda, ou parte dela, tratou de identificar o seu opositor sem nomeá-lo, além do mais tirou essa estratégia de oposição da saga Harry Potter. Sim, é uma esquerda infantilizada.

Nomear Jair é importante, pois, inclusive, a praticidade de seu nome o torna mais um na multidão, João Doria já o fizera durante a sua campanha para prefeito em São Paulo. Utilizando-se do jingle “João trabalhador” fez com que a débil memória paulistana se esquecesse do seu programa Show Bussines, na Rede TV, um programa com pouco apelo popular e muito glamour, uma espécie de ‘Amauri Júnior’ do empresariado paulista. Na mesma esteira, Jair personifica o super-homem de face dúbia. Aquele que não só exala a simplicidade do cidadão pelo seu escasso vocabulário, mas também transparece uma maior libido do que os seus simpatizantes. É como se os seus simpatizantes se sentissem atraídos por sua vontade de potência. Na prática, seria basicamente a corporificação do que o indivíduo deveria ser, mas por sua castração não o é. Porém, Jair poderá fazê-lo, poderá sê-lo, esta é a crença. Para isso, quem se opõe a Jair deve morrer, o próprio já anunciara isso durante a campanha. É como no cristianismo, com a qual o que não é vinculado, não está a salvo. Trata-se de uma relação libidinal e messiânica.

II – Por que Messias (?)  Messias, etimologia do hebraico meshiha. Significado? Ungido, ou seja, o que recebeu a unção, a benção. A política é permeada por Messias. Na Alemanha nazista, na Itália fascista, em Portugal salazarista e na Espanha franquista. Nesses exemplos, Deus e o Estado, tratados de modo unívoco, slogans como deutschland über alles (Alemanha acima de todos), orações ao próprio Hitler, tratados bilaterais entre a igreja católica e o fascismo, abraços firmes entre o Papa Pio XI e Mussolini e os sermões de Salazar e Caetano. Se a política celebra os seus Messias, a unção é institucionalizada pela fé cristã. No Brasil, a mesma simbiose está em processo, a laicidade foi empurrada para a vala, a doutrinação neopentecostal e a sua capacidade de angariar votos ao Messias. “Adesivaços” após a missa, afinal, estes são os valores. O deus branco acima de todos.

III – Por que Bolsonaro (?) A resposta é simples: ele representa tudo o que (e quem) o país sempre priorizou desde a proclamação da república em 1889. Os atores e as instituições que evidenciaram a campanha de Bolsonaro são análogos aos de outrora, no entanto, elevados à potência infinita. A república no Brasil nunca fez jus ao seu nome, afinal, res pública significa coisa pública, mas que coisa é essa cujo funcionamento sequer conhecemos?

A democracia? Um animal raro, talvez na tradução ao português brasileiro tenha transmutado o seu significado, uma vez que nas mais variadas experiências ‘republicanas e democráticas’, assistimos foi uma demofobia, ou seja, uma aversão ao povo, uma bestialização da existência alheia, aliás, como já dissera Lima Barreto, povo no Brasil é público, pois é passivo, assiste e aplaude. Digo passivo e não pacífico, afinal, não nos orgulhamos da violência estrutural responsável pela morte de 63 mil pessoas por arma de fogo no último ano. Como contracapa dessa demofobia, o público assiste à valorização do mercado, à proliferação de propagandas e a campanhas em prol do empreendedorismo, como se em um estalo, aos milhares, as pessoas adentrassem ao espírito do livre cambismo e superassem por mérito uma das economias mais desiguais do capitalismo global.

IV Por que Jair Messias Bolsonaro (?) Como dissera o professor Vladimir Safatle, a conciliação da nova república acabou. Os acordos, os consensos forjados, as coalizões não saciam mais a fome do deus mercado. Afinal, os entraves da Constituição de 1988, as empresas estatais, as universidades públicas, o sistema único de saúde, em resumo, os serviços básicos não seriam rearticulados e controlados pelo mercado, caso não pudéssemos contar com a ‘generosidade’ de um candidato antissistema. Dessa generosidade, o ungido receberá uma nova unção, esta, do panteão imperialista. Enquanto isso, do outro lado da fenda, há um espectro que insiste em rondar, faz desde 1848.

 

Jefferson Cavalcanti

Sobre o Autor

Jefferson Cavalcanti

Mestre em Antropologia e professor na Faculdade Guarapuava