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Opinião
| 14 jun de 2019

Sobre a desnaturalização da ação

Eliseu Visconti – Moça no trigal (1916)

Muito apreciado nas ciências que fazem uso da Antropologia, a desnaturalização da ação é um exercício que permite com que vejamos a concretude de forma diferente. Do momento em que nascemos, o modo como produzimos a materialidade necessária à existência, tudo, aos poucos vai sendo incorporado, ou nos ensinado, como algo natural, algo que sempre foi ou sempre será da mesma forma. O movimento que não se desnaturaliza, portanto, assume ares de eternidade, ao ser meramente reproduzido.

O trabalho no seu sentido capitalista é, portanto, naturalizado. Outros momentos históricos eram dotados de outras relações, outros aspectos da troca, da educação a partir da ação imanente ao contexto social. Em outras palavras, outras formas não alienadas e que não se convertiam em seu próprio sucedâneo ou finalidade.

Marx descrevera aspectos dessas formas de trabalho em sua obra O Capital, falando especificamente do trabalho do artesão. Dois aspectos são os que mais me chamam a atenção: a virtuosidade e a porosidade.

Do primeiro, a virtuosidade, é compreendida através da experiência do artesão. Ele domina todos os aspectos da produção, do tratamento da matéria-prima, até o produto final. Não se trata, portanto, de uma produção performática, visando eficiência e eficácia, mas pensa-se na utilidade do objeto produzido.

Do segundo aspecto, quanto à porosidade, refere-se ao tempo. Entre um processo e outro, há a troca das ferramentas, dos materiais. Pode-se parar para rever os processos, planejá-los melhor. Isso causa poros na malha temporal de produção, assim como cognitivamente, o trabalho é incorporado por seu lado subjetivo de outras formas, convertendo-se em cultura autêntica.

Quanto mais as formas de produção desenvolveram-se, na forma da técnica e da tecnologia, mais os sujeitos foram sendo destituídos da porosidade (tempo não administrado) e da virtuosidade (experiência). Para que qualquer sujeito pudesse operar as novas máquinas-ferramentas, foi necessário, primeiro, que aquele artesão fosse destituído de seu conhecimento, de sua subjetividade. Vejam, para que qualquer operário possa utilizar a ferramenta, foi necessário que ela fosse simplificada ao máximo, ao ponto de que com toques em uma tela de cristal líquido, ou apertar de alguns botões, ocorra a produção desejada.

A produção, por outro lado, sequer é planejada pelo operário. Ele não mais produz de acordo com a utilidade, mas, produz de acordo com a subjetividade incorporada pelo meio: em grandes volumes, pois o lucro vem através da exploração máxima do trabalho, da natureza e aumento da produção.

Nesse sentido, para a exploração máxima do trabalho, fomos destituídos do tempo não administrado. Ficar por alguns minutos sem desempenhar a função mínima a qual nos é dada, é impensável.

Alguns trabalhos ainda seguem esse pressuposto artesanal. Como o trabalho docente. Ao tentar imprimir esse ritmo fabril na educação, as políticas falhas miseravelmente. Não é culpa dos professores ou alunos. O fluxo informacional é inversamente proporcional ao aprendizado. Mesmo quando as tecnologias, altamente valorizadas na Base Nacional Comum Curricular, chegam na sala de aula, elas chegam para dar ares de linha de produção. Enquanto os valores axiológicos não forem condizentes com a forma de manifestação real do trabalho, a educação ainda falhará em seus princípios mais básicos, como a humanização e socialização de valores culturais autênticos.

Nesse misto de operário-artesão, não há conjunção entre forma e conteúdo. É necessário que se desnaturalize tudo, para que enfim, processos de Revolução possam ser iniciados. Poderíamos facilmente colocar isso como necessário em outros campos de atuação, como a política e economia.

Everett Rogers, no seu livro Difusão de inovações, escreve que a adoção de inovações (seja artefatos tecnológicos, seja práticas sociais) são mais dependentes da percepção. Mesmo que não seja uma boa ideia, ou uma ideia nova, é necessário que os sujeitos as percebam como boas. Daí vem a necessidade de convencimento, como gastos crescentes em publicidade, pelo governo, ou contratação de “robôs” para disseminar conteúdo positivo acerca de determinadas proposições, como a reforma da previdência.

Vejam: adesão só vêm através da manipulação da percepção que, sem uma experiência condizente para comparação, é tomada de imediato.

Autocrítica sem experiência, portanto, é forma sem conteúdo. A desnaturalização desenvolve a autocrítica, mas nossa forma alienada e estranhada de produção da vida material, não conduz à experiência, em seu sentido mais amplo.

Desnaturalize-se. A partir da centelha de autocrítica, é possível que haja mudança social, em sua dimensão mais estrutural. A herança que podemos deixar, não se trata da materialidade, mas da capacidade dos outros sujeitos que ainda não vieram ao mundo, possuírem meios de produzir uma outra História, com suas próprias mãos – e trabalho.

Adonias Luz

Sobre o Autor

Adonias Luz

Mestrando em Educação, na linha de Políticas, História e Organização da Educação, pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO). Pós-graduando lato sensu em Neuropsicopedagogia, Graduado em Ciências Sociais, pela Faculdade Guarapuava. Graduação interrompida em Geografia, Licenciatura e Pedagogia: Docência e Gestão Educacional, pela UNICENTRO.