Jornalismo local e analítico

Opinião
| 18 jun de 2019

Prognósticos em tempos de crise, ou a divinação

Frank Duveneck – A Cartomante (1848-1919)

Tanto Theodor W. Adorno, em sua Dialética do esclarecimento, quanto Paul Feyerabend, em sua Ciência em uma sociedade livre, admitem, até certa extensão, que a ciência se converteu em mito, ao tentar remover os aspectos simbólicos criados a partir de uma cultura imanente ao contexto social, substituindo por esquematismos abstratos, artificiais.

Embora não seja usual, em outras construções textuais, por vezes me permito fundir os conhecimentos de análise social, com elementos retirados dos mitos, como já fiz em outros textos do Integração Online (clique aqui).

Dados os aspectos da conjuntura social, política e econômica, o prognóstico torna-se pessimista. Ao tentar lutar contra o que era posto, ou seja, a “crise” econômica, os sujeitos foram levados à crença de que o “mito” (embora tenha pena em usar essa palavra) resolveria os problemas sociais, causados pelo próprio modo de produção.

Através da manipulação massiva de opiniões, em um modelo que beira o fascismo, os atores políticos atuais alçaram-se aos céus. Construíram narrativas, nomeando inimigos arbitrariamente e, seguros de seus esquemas, pensavam-se inalcançáveis.

Giovanni Vacchetta – Arcano XVI – A Torre (1893).

O vazamento das conversas de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, pelo site The Intercept Brasil, pode ser o primeiro raio desferido contra a Torre de Babel da farsa pseudodemocrática. É uma desilusão dolorosa para aqueles que ainda defendiam a imparcialidade da justiça burguesa. O arcano é claro: só vai ao chão aquilo que foi construído sobre alicerces frágeis.

Mais do que isso, o raio apenas atingiu o topo da Torre. A estrutura, ou como podemos dizer em categorias científicas, a hegemonia, ainda permanece. Devemos estar cientes que essa “crise” não é mero artifício do destino, sequer uma provação. Ela representa a incursão do capitalismo neoliberal em terras latino-americanas. Parte das políticas dos Estados Unidos, para manutenção de sua hegemonia econômica, tecnológica e política, consistem em desestruturar governos locais, levando sua “democracia” e sua “liberdade”, desde que estejam de acordo com suas políticas econômicas.

Eduardo Galeano, em As veias abertas da América Latina, já discorre que, desde tempos coloniais, “nos especializamos em perder”. Primeiro para os colonizadores da Europa, em seguida, para o imperialismo estadunidense. Caio Prado Júnior, na Formação do Brasil Contemporâneo complementa: desde a gênese da colônia, fomos vistos como fornecedores de alguns bens tropicais, mas a princípio, não era intenção dos colonizadores que aqui fosse algo mais do que uma colônia de exploração para o poder hegemônico, sem a intenção de desenvolver o território.

Como diz Adorno, não é o malogro do progresso, mas o progresso bem-sucedido que é culpado de seu próprio oposto. Nos especializamos em perder, para que outros se especializassem em ganhar e, ao que parece, isso é imperativo desde as relações entre os sujeitos, até à macroeconomia, pois a subjetividade é derivativo dessas experiências com a base material.

As estruturas da Torre, suas bases, ainda não ruíram o quanto deveriam, mas o prognóstico que se faz, é que desse caos nasce um terreno fértil às mudanças, assim como o arcano representa. É hora de rever as estruturas, que outrora inabaláveis, agora tornam-se frouxas.

O raio atingira o primeiro nível. Mas acima desse, para a concretização de um projeto de desenvolvimento nacional, o qual várias vezes iniciamos, sofrendo sucessivos golpes de Estado, é necessário que mais Torres venham ao chão.

 

Adonias Luz

Sobre o Autor

Adonias Luz

Mestrando em Educação, na linha de Políticas, História e Organização da Educação, pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO). Pós-graduando lato sensu em Neuropsicopedagogia, Graduado em Ciências Sociais, pela Faculdade Guarapuava. Graduação interrompida em Geografia, Licenciatura e Pedagogia: Docência e Gestão Educacional, pela UNICENTRO.