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Opinião
| 8 jul de 2019

Pelo que vejo isto não está certo!

Imagem: dreamstime

Falsas notícias sempre existiram e sempre manipularam nossas formas mentais de pensamento. Isto não é de hoje. Estereótipos, rótulos e preconceitos foram fabricados, disseminados e sentenciados com muita perversidade pelo mundo afora desde épocas mais remotas. Todavia, sempre houveram pessoas que colaboraram no ‘justo esclarecimento’ para decifrar o verdadeiro do falso, mas que, via de regra, ou ‘fracassaram’ ou ‘não foram compreendidas em sua tarefa histórica de parresia’, ou seja, a coragem de dizer a verdade por ser verdade.

Isto aconteceu na Grécia Antiga com filósofos, na Roma Antiga com Imperadores e Senadores, na Idade Média com a Igreja Romana, no mundo moderno com a Burguesia e, agora, na Contemporaneidade, em uma escala denominada de infocalipse, segundo o pesquisador e tecnólogo americano Aviv Ovadya.

Na atualidade, vive-se um período tão competitivo e tão febril que para a imposição de uma afirmativa a qualquer custo, não se admite outra idéia, mesmo que esta idéia seja razoável.  Deste modo, para tristeza geral de toda e qualquer nação, pessoas tóxicas quase sempre prosperam em espaços também tóxicos. O resultado disso no tempo presente, próximo de ser quase sombrio, é que ‘os menos confiáveis estão mais hegemônicos que os confiáveis’. Dito de outra forma, a superioridade de quem fabrica notícias falsas está muito acima daqueles que tentam se contrapor em defesa daquilo que se aproxima da verdade.

Assim, o que tenho visto, parafraseando uma categoria do filósofo alemão J. Habermas, é que o mundo sistêmico está em sobreposição ao mundo vivido e tem revelado pessoas que mais parecem competentes do que são na realidade. Quando o ex-presidente FHC (unanimidade da elite do passado e colocado em suspeição pela elite do presente), em entrevista ao El País, declarou em plena tensão pós-eleitoral de 2018 que em nosso país não havia mais espaço para pessoas razoáveis, estava querendo dizer, na verdade, que o rivalismo ideológico tinha produzido o apagamento de pessoas dialógicas e civilizadas, próprias de um bom regime democrático. Isto é tão verdade que dificilmente teremos nas próximas eleições, sejam municipais ou estaduais, a disposição de pessoas sensíveis à verdadeira causa comum. Isto quer dizer que o sistema, quase sempre, inibe ou bloqueia pessoas altruístas, abnegadas, dotadas do verdadeiro espírito republicano, uma vez que o que se celebra hoje pelo próprio sistema em curso são vícios competitivos, grande agressividade e pouca ou nenhuma empatia social. Pelo que vejo isto não está certo.

Claudio Andrade

Sobre o Autor

Claudio Andrade

Doutor em História e Sociedade pela UNESP, Professor Associado do Departamento de Filosofia da UNICENTRO. Assessor do CEFEP/CNBB e Presidente da Academia de Letras, Artes e Ciência de Guarapuava