Jornalismo local e analítico

Opinião
| 6 maio de 2019

O mundo como espaço da nudez

William-Adolphe Bouguereau – Anoitecer e Alvorecer (1882;1881)

Após ouvir recentemente que a universidade tenha se transformado em um espaço de balbúrdia e nudez, a primeira reação que tive, é discordar veementemente. Mas, com o devido tempo, ao ler relatos que negam com todas as ferramentas linguísticas possíveis, passei a me questionar, ao mesmo tempo, se a nudez na academia tem sido o suficiente.

Nesse momento, tenho que me tornar mais claro que isso: despir o leitor de uma primeira impressão, que incorreria na incompatibilidade com seus princípios éticos e morais e levaria ao limbo toda a potencialidade do escrito.

Ao me referir à nudez, não o faço de modo literal. Mas relacionando com a Arte, onde a nudez há muito tempo tem sido amplamente aceita. É mais fácil aceitar o nu representado, pois a representação não é a própria materialidade, do que aceitar o sujeito concreto, desnudo. A sociedade aceita a representação, mas não a nudez do observador da obra de Arte, e isso já incorre no questionamento, com relação à razão deste fato.

Vejam, a nudez que pretendo propor não é a nudez objetiva. Mas a nudez das ideias. Despir-se, não representa o abandono da essência, mas da aparência. Fábio Durão, ao referir-se à superprodução semiótica da Indústria Cultural, a qual estamos sendo alvos, a todo momento, diz que essa abundância de estímulos (das propagandas, dos filmes, das artes falsificadas), representa uma falta de conteúdos. Não nos alimenta a experiência autêntica, necessária à formação, mas ocasiona pontos acelerados e dispersos de informação, desconectados da história, objetiva e subjetiva.

É uma embriaguez momentânea nos sentidos, mas que dessa mediocridade, não nasce a formação. É um excesso de roupagens ideológicas, que sufocam a essência do pensamento, restringindo a capacidade de autocrítica.

Despir-se dos excessos, é também uma forma de alcançar a liberdade. Nossa forma de ação, sempre reativa aos factoides, não poderia nos trazer a liberdade, da qual Adorno fala em sua Dialética Negativa. A simples negação da coerção, não irá nos despir dela, pois é através da manipulação dessas informações, da administração dos sentidos, que se mantém a heteronomia do sistema econômico.

A nudez do espírito, converte-se em resistência às tendências generalizadoras da sociedade. Talvez seja a razão pela qual nos é negada. Mas, de antemão, despir-se é processo: não se removem todas as aparências ao mesmo tempo. É onde entra o imperativo da formação, o tempo não administrado, pois cada sujeito despe-se em seu próprio momento.

Nudez e balbúrdia. O caos, que não pode ser racionalizado pelo esquematismo de 1 e 0, é mero complemento. A temperança, a serenidade, são confortáveis, mas dela não surge a mudança social. A nudez da Arte é aceita, quando invoca a temperança, mas como representação. Nela, falta a balbúrdia da imprevisibilidade da ação. Do caos, surge o medo mítico do desconhecido, da ação que não pode ter seus resultados mensurados, colocando o indivíduo, outrora imbuído da dominação da natureza, e de outros homens, no seu assento de espectador das forças naturais. O medo da nudez, e da balbúrdia, são regressões ao medo mítico, da incapacidade do controle e da falsa temperança que o esclarecimento proporciona.

Sejamos nus, despidos de armaduras, mas tenhamos a consciência de que a barbárie não provém da nudez ou da balbúrdia, mas da adaptação a esses ideais integradores, que nos negam a nudez das ideias. A barbárie vem do espectro oposto ao fracasso, mas do progresso bem-sucedido, como efeito colateral. Quanto mais nos perdermos nessa ordem objetiva das coisas, mais vestidos e embriagados ficaremos e, dessa hipermaturidade da sociedade, como cita Adorno, mais imaturos se tornam os sujeitos.

Nesse misto de potência e impotência, a serenidade não tem seu lugar. Se há caos e nudez, há uma ínfima possibilidade de mudança, pois ambos contrariam a ordem que nos é imposta. Novamente, sejamos nus, nos despindo dos excessos de estímulos, mas tenhamos um pouco de balbúrdia, para nos impulsionarmos à liberdade. E a isto poderíamos chamar de tensão entre pensamento e realidade.

Adonias Luz

Sobre o Autor

Adonias Luz

Professor de Sociologia - Mestrando em Educação (Unicentro)