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Opinião
| 27 abr de 2019

O canto das sereias e as políticas educacionais

Em sua Dialética do Esclarecimento, Theodor W. Adorno nos traz uma rica analogia, comparando alguns aspectos da vida moderna, com o episódio em que Ulisses, da epopeia de Homero, a Odisseia, precisa passar por uma ilha repleta de sereias, como parte de sua viagem para a ilha na qual era rei, Ítaca.

Ulisses possuía características que contrariavam as tradicionais narrativas gregas, segundo Adorno. Usava seu intelecto contra todas as forças naturais e divinas que se opunham à concretização de seu objetivo, ao passo que não era dotado de características sobre-humanas, como outros heróis. Ao seu alcance estava sua tripulação fiel e sua embarcação. Ele era o protótipo do homem moderno, onde, o episódio das sereias, nos fornece uma oportunidade de reflexão sobre a condição humana.

As sereias, animais mitológicos parte humana e parte animal (as quais W. Etty brilhantemente representou como apenas humanos, com sentido análogo à epopeia), atraíam os marujos para a fatalidade, graças ao poder do seu canto, que os seduziam, para jogarem-se ao mar. Temendo pelo seu destino (reforçando a autopreservação), Ulisses utiliza de seu esclarecimento para superar as forças naturais: ordena que o amarrem ao mastro da embarcação, após tapar os ouvidos da sua tripulação, com cera de abelhas.

Novamente o esclarecimento salva o herói de seu destino, conduzindo-o para mais perto de seu objetivo.

O canto das sereias pode ser interpretado de várias formas, sendo uma delas como uma expressão de Arte. Os trabalhadores, com ouvidos cobertos de cera, não podiam apreciar o canto, direcionando toda sua atenção e força de trabalho para movimentar a embarcação. Por outro lado, Ulisses, ao ser amarrado ao mastro, poderia experimentar a Arte, mas, quanto mais se movesse, mais apertados os nós ficariam. Estava limitado a acenar com a cabeça, embora os trabalhadores já soubessem que deveriam ignorar os pedidos para soltá-lo, pois seria fatal.

No dia 25 de Abril, em uma fala entristecedora (para dizer o mínimo que senti), Jair Bolsonaro e Abraham Weintraub veicularam falas sobre o fim do investimento em faculdades de ciências humanas, com a finalidade de “ensinar ofícios” úteis à embarcação brasileira. Embora não possam ser comparados à Ulisses, cuja maior arma é o esclarecimento, ambos possuem esse caráter de tapar os ouvidos dos trabalhadores, para a não apreciação da Arte, a qual já comparei com a estética da educação autêntica anteriormente.

Ignoram o fato de que igualmente estão amarrados ao mastro. Suas condições materiais permitem que sejam tangentes à Arte, mas apenas capazes de acenar com a cabeça, atando-os cada vez mais. A educação autêntica não pode ser pragmática, pois é necessário que se compreenda a condição humana através do desvio. Kosik, na Dialética do Concreto, já postulara: o fenômeno que se apresenta, é aparência, e sua essência só pode ser alcançada pelo détour (desvio) reflexivo. Este é proporcionado pela educação que não se compromete em imitar o mundo do trabalho alienado e estranhado, através de competências, habilidades e exaltação do trabalho produtivo – ao mundo econômico.

As políticas educacionais atuais, que já decorrem há tempos no Congresso, são produzidas de forma a cobrir os nossos ouvidos com cera, destituindo-nos das ferramentas necessárias à manter a tensão entre pensamento e realidade, tanto quanto pensar o próprio pensamento. É a expressão mais clara de uma educação para a barbárie, superficial, a falsificação da formação autêntica que deveríamos lutar contra.

Uma falsa formação que fica subsumida ao mundo material – mobilização de saberes para o trabalho – e força uma autoalienação dos sujeitos. Autoalienação é a eliminação da consciência, que favorece a apropriação de uma ideologia do meio técnico. A isso, se traduz na facilidade com que os sujeitos assimilam discursos, pois sua resistência às tendências generalizadoras da sociedade é enfraquecida, para não dizer inexistente.

Seria essa a formação que queremos? Insisto em acreditar que não. Uma (de)formação para adaptação e integração a um sistema econômico que já irracional por si mesmo, tendo como base a perpetuação das necessidades humanas, ao invés de diminuí-las, impedindo o sujeito de pensar para além das aparências do progresso falsificado, não pode ser o sentido da educação.

Acabar com a filosofia e sociologia é, sobretudo, acabar com o pensamento não instrumental ou utilitário. Poderia ser dito que isso não os impede de ler em casa, ou em bibliotecas. Mas de antemão, isso já é uma falácia, ao onerar o sujeito pelo seu próprio aprendizado. Conduzir nossa embarcação cada vez mais para a heteronomia e para dependência à uma “ordem objetiva das coisas” (como fala Herbert Marcuse, em sua Ideologia da Sociedade Industrial), parece ser o objetivo primevo dessas novas/velhas políticas.

As Sereias e Ulisses – William Etty (1825)

Adonias Luz

Sobre o Autor

Adonias Luz

Professor de Sociologia - Mestrando em Educação (Unicentro)