Jornalismo local e analítico

Opinião
| 7 dez de 2018

Muito mais que ensino

Foto: Agência Brasil

Zygmunt Bauman, em Comunidade (2000), um de seus muitos trabalhos, escreveu que, uma vez necessário conduzir alguém por dentro de uma cidade, o caminho escolhido diz muito sobre como nos identificamos com ela. A memória que nos auxilia a saber o caminho é sensível, passional, irracional e, por certo, seletiva. Então quando alguém nos pergunta alguma direção, alguns pontos de referência podem divergir. Quem escreve essas palavras não é capaz de pensar em Guarapuava sem pensar em UNICENTRO, afinal, só estou o aqui por causa da universidade. E esse estar aqui pode ser como aquele que escreve, mas também no sentido mais literal possível. O prédio amarelo é um ponto de referência para muitos, universitários ou não, guarapuavanos ou não – me encaixo neste último. Mas insisto em falarmos sobre universidades,porquê elas são mais do que prédios onde investimos nosso tempo, ou parte das paisagens do nosso caminho diário.

2019 se anuncia como um ano de mudanças, além das bem conhecidas e óbvias. Este novo ano, me parece, coroa também uma forma de enxergar o ensino, em suas múltiplas fases e plataformas. O “piloto do avião” é um sujeito que diz “deixa os historiadores pra lá”, “há doutrinação nas escolas”, “o ENEM não mede conhecimento”, enfim. Isso me surpreende, afinal de contas o dito cujo é um renomado intelectual, leitor das mais importantes referências. Faz aparições em canais educativos que acreditam que uma das tradições mais letradas, a árabe, queimava livros. Para o nosso piloto só falta dizer que se adoça refrigerantes com fetos humanos.

A essa altura, o leitor ou a leitora já devem estar se perguntando a razão de tamanha volta. É muito simples, quem venceu em 2018 prega o desserviço de desacreditar, entre muitas coisas, do ensino e da educação. Um dos nossos mais importantes e inspiradores intelectuais, Paulo Freire, é mal-dito por esse estrato da nossa população, e vale dizer, em muitos casos sem saber ao menos a cor da capa de seus livros. A universidade não é um antro de comunistas, vide a quantidade de votos que o piloto teve dentro do meio acadêmico. Mas não vou me estender nisso, algo é mais urgente.

Dizer que nós professores temos um plano, um projeto secreto de dominar a cabeça de jovens e crianças com alguma ideologia perigosa é uma arma nitidamente terrorista. Aliás, o Estado Islâmico, em suas mídias oficiais sempre bate na tecla do ensino que aparta os estudantes de seus deveres morais. Essa imaginação delirante, por falta de termo melhor, tem interesses que eu não consigo diagnosticar. Como saída, o nosso piloto sugeriu a EAD como uma ferramenta para ir de encontro ao marxismo. Não me entendam mal, a Educação a Distância não tem nada de errado, aliás, ela surge para suprir a ausência da estrutura física. É louvável o esforço de levar o ensino, por meio da tecnologia, até recantos mais afastados e até estudantes que, pela distância, talvez nunca tivessem acesso ao ensino superior. Ainda, a própria UNICENTRO tem um trabalho reconhecido nessa área, com diversos cursos de EAD. Mas as duas formas, a distância e presencialmente, são necessárias.

Mas qual o problema, então? O problema é que universidades e escolas não servem apenas para sentar e receber, quase num sentido espirita, um conhecimento dominado por um sujeito que já está mais desenvolvido. Ou seja, não é possível doutrinar os alunos porquê eles não são papéis em branco onde qualquer um pode escrever. São espaços de sociabilidade, onde nos descobrimos como pessoas e cidadãos. Além disso, assim como eu, milhares de estudantes tem passado por Guarapuava, alguns como eu, adotaram a cidade para si. Instituições de ensino movimentam a economia, com a locação de imóveis e o consumo, e para uma parte considerável da população traz as lembranças mais felizes. Guarapuava para mim tem cheiro de universidade, e a universidade, para mim, sempre será lembrada como muito mais do que ensino.

 

 

Gilvan Gomes

Sobre o Autor

Gilvan Gomes

Mestrando em História (UDESC)