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Opinião
| 31 out de 2018

Lua de fel

Colaboração de Alessandra Pontarolo (Psicóloga)

O filósofo e historiador holandês Frank Ankersmit defende que as metáforas constroem pontes para lacunas que a linguagem é incapaz de suprir. Um pouco mais reconhecidos, os textos religiosos fazem uso extensivo de parábolas para passar sua mensagem. É por isso, que diante da dimensão narrativa que o tempo presente nos impõe, hoje, a melhor forma de opinarmos é com uma história. Conheçam Maria!

Maria é uma dessas mulheres fortes, independentes e que sabem o que querem. Ela aprendeu a ser assim com sua família, composta por ela, a mãe e a avó. Maria é também professora, numa escola pública, pequena e, seguindo o padrão brasileiro, repleta de problemas. A estrutura poderia ser melhor, o seu reconhecimento, material e social, poderia ser melhor e, de fato, com o apoio da sociedade Maria poderia ter algumas horas a mais de descanso. Todo dia ela houve e observa histórias, famílias desestruturadas, a fome que agride seus alunos, a criminalidade que compete com suas aulas e as diversas violências. Maria sabe que ser professora não é fácil, e que sozinha ela não é capaz de mudar sua realidade, mas isso também não a impede de seguir acreditando em dias mais felizes. Sua vida pessoal não é mais simples que a profissional. Ela vive no mundo contemporâneo, e como a maioria de nós, Maria não se sente segura o tempo todo.

A vida amorosa está em um novo momento. Maria conta trinta anos e seus relacionamentos recentes estavam longe da perfeição. Tiveram pontos positivos, mas em certo sentido ela está cansada dos mesmos relacionamentos de sempre. Agora, ela quer algo mais sério, quer segurança, quer uma família. Com essa nova decisão em mente ela conheceu JaiMe, um vizinho de bairro que superficialmente ela conhece há muitos anos. Poderiam ter conversado antes, mas JaiMe não é tipo de cara que “aparece muito” na comunidade. Quem é JaiMe? JaiMe, pode-se dizer, é um “homem de bem”. Tem 28, mas as vezes parece ter 50. Ele frequenta a igreja, foi do exército na juventude, e hoje é um empresário de certo sucesso (é bem verdade que com uma ajuda generosa dos pais). JaiMe é aquele cara certinho, sabe? Do tipo: “não se fazem mais homens como antigamente”.

Eles se conheceram em um casamento. Ela, amiga da noiva, ele, conhecido do noivo. Eles são, francamente, incompatíveis. JaiMe demonstrou interesse imediatamente, ela relutou. Mas a cada a post, a cada mensagem, JaiMe prometia ter a segurança que muitas vezes Maria sentia falta. Por isso, aos poucos, ela foi se deixando entregar. No começo, tudo eram flores, cada declaração, cada gesto colocava Maria acima de tudo. Desse modo, ele a pediu em casamento, e mesmo com alertas de pessoas em quem confiava, ela aceitou.

Mas o relacionamento estava longe de ser perfeito. JaiMe era um rapaz intempestivo, assim como seus amigos, e eventualmente agressivo. Tinha crises de ciúme, acusava Maria de não levar o relacionamento a sério, de flertar com outros, até mesmo de traição. Após os incidentes, ele sempre se desculpava, dizia que estava brincando, dizia: “não foi bem assim”. O suporte, outrora prometido, esvaziava-se quando ela falava sobre os problemas na escola e JaiMe respondia: “você deveria lecionar em lugares mais adequados, ou parar de trabalhar”. Ele nunca bateu nela, mas ela sempre era alertada de mentiras, traições, saídas escondidas, até mesmo negócios questionáveis. Ele nunca bateu nela, mas seus amigos mais próximos tinham agredido esposas e namoradas, até mesmo a assediaram. Ele duvidava ou colocava nela a culpa. Mas Maria não duvidava de JaiMe, não importava quantas vezes repetissem as histórias, ela não acreditava. Aliás, ela começou a achar que ele tinha razão, ela que não deveria ter conversado com fulano, ter usado tal roupa, ter se insinuado. Ele era diferente, ele era um cara legal. Maria não era mais Maria. A sua vida de antes estava longe de ser maravilhosa, mas Maria fazia suas próprias escolhas, ela era livre. Maria tinha medo do futuro, de repetir escolhas infelizes, porém, agora com JaiMe nem escolher ela pode mais.

Maria pode não saber o que é, duvidar ou negar, mas o nome disso é relacionamento abusivo. O prognóstico é de um casamento desastroso.

 

 

Gilvan Gomes

Sobre o Autor

Gilvan Gomes

Mestrando em História (UDESC)