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Opinião
| 14 mar de 2019

Entre a curva do pessimismo e a procura por alternativas

Imagem: metzgerei

Diante do óbvio, que estamos praticamente sem saída quando o assunto é política, restou-nos pouca coisa. Isto não é negatividade ou pessimismo, mas sim, sobrevivência ou de como ocupar-se de alternativas. Diante do desespero político em todas as esferas institucionais a pergunta é: como manter fixo o olhar no escuro da época? Há escapatória? Parafraseando Arendt, será que ainda há chance para vivermos uma vida qualificada apesar da sobreposição das técnicas de dominação sobre o ser humano [biopoder]?

Pois bem, se a vida coletiva ou pública já não nos seduz mais dado à sua quase impossibilidade no tempo presente, o que acha de preservar-se e manter-se fiel aos seus princípios até que uma resistência maior possa nos salvar? O que vejo são pessoas exaustas com expectativas cada vez menores. O vácuo entre indivíduo e cidadão só aumenta. Qual seria então o medicamento para prosseguirmos?  Tentando responder, trago-lhe experiências do passado que podem ser úteis para a contemporaneidade.

A primeira defesa que faço aqui é que vida justa nem sempre é o mero cumprimento da lei. Os estóicos já pensavam assim. Os primeiros cristãos também.  Há em nós [felizmente] um espaço interno que ousamos chamar de liberdade interior que está longe do politicamente correto. Ora quando as vidas públicas e coletivas estão sendo negadas às pessoas pela marcha da insensatez, considere contrariar o que está posto pelos inúmeros dispositivos disfarçados de ‘a grande novidade e modernidade política’ e comece a pensar ‘como se não’ ou ‘a potência do não’.

Hoje está difícil esconder nossa insatisfação com estas muitas colonizações e naturalizações que nos fazem meros instrumentos de dominação. Até parece que o sistema está aí apenas para nos capturar e como somos mais entes que propriamente humanos, quase sempre somos presa fácil. O que proponho, após uma tentativa de compreender o filósofo italiano G. Agamben e o que ele quis dizer com ‘formas-de-vida’ é que podemos fazer a mesma coisa, mas com uma diferente disposição de espírito, ou seja, nem totalmente semelhantes, nem totalmente diferentes. Se investir na crença de que podemos mudar o mundo pela formalidade das ações coletivas, quase sempre utópicas em desvantagem neste momento, além do fracasso líquido e certo [no momento em que escrevo] corremos o risco de uma náusea jamais vista sobre tudo o que é público e coletivo.

Assim, para manter-nos sóbrios diante de uma multidão embriagada a atitude mais sábia pode estar naquela à margem não nos tornando notados nem nos deixando ser iguais à massa com o claro propósito de não emprestar assinatura para o nosso suicídio.  Dito de outra forma, precisa-se gastar energia no esclarecimento, no entendimento do que está acontecendo ou em detectar as raízes da enfermidade para tentar isolar o vírus.

Não se trata de qualquer esclarecimento, até porque há esclarecimentos que são meras convenções, travestidos de luzes ou pseudo-esclarecimentos que ousamos chamar de analfabetismo funcional. Ora, o analfabetismo ilustrado é essa condição tão paradoxal de estar em sociedades nas quais o acesso ao conhecimento é uma condição mais ou menos compartilhada, onde temos informação aberta ao alcance de muitos, ou seja, que é possível se apropriar e conhecer quase todos os saberes de nosso tempo, no entanto, somos muito incapazes de agir a partir desses saberes.  Por não sabermos converter nossos saberes em processos de emancipação e transformação coletiva, restou-nos converter nossa inteligência para formas-de-vida extraordinárias e incomuns. Pelo menos por enquanto.

Claudio Andrade

Sobre o Autor

Claudio Andrade

Doutor em História e Sociedade pela UNESP, Professor Associado do Departamento de Filosofia da UNICENTRO. Assessor do CEFEP/CNBB e Presidente da Academia de Letras, Artes e Ciência de Guarapuava