Jornalismo local e analítico

Opinião
| 4 jun de 2019

Decifra-me ou te devoro: sobre as ações implícitas nas políticas

Imagem: François-Xavier Fabre – Édipo e a Esfinge (1806-1810).

A imagem é de uso recorrente, bem como seu título. Ela representa a história de Édipo, frente ao enigma da esfinge de Tebas. A pergunta, também de uso recorrente como recurso linguístico, pode demonstrar o esclarecimento de Édipo.

O sentido desse escrito, portanto, não é explorar o que é continuamente explorado, mas propor uma visão diferente para o mito, nas nossas esfinges contemporâneas. A primeira delas, é com relação ao enigma. Ora, com a velocidade comunicacional que dispomos hoje, sequer a esfinge teria uma vitória, pois buscadores, por piores que sejam, nos dariam a resposta em segundos.

O enigma contemporâneo centrar-se-ia em um patamar mais complexo. Provavelmente naquilo que só a junção entre doxa (opinião), sofia (razoavelmente comparada à categoria de Experiência) e episteme (conhecimento sistematizado) proporcionam. Refiro-me à didaskalia. Não ao seu sentido no teatro, embora com sentido semântico análogo, mas sua acepção pedagógica, da techné didaktiké, ou a arte de ensinar. Sem a didática, a prática docente não poderia ser os três ao mesmo tempo. Portanto, no seu sentido contemporâneo, provavelmente, a esfinge perguntaria algo relacionado a isso, para ser agraciada com a vitória, de tempos em tempos.

A junção das três formas de conhecimento permite romper com as amarras da pseudoconcreticidade dos fenômenos. Ir para além da aparência. Com um tom informativo e demonstrativo, eu apresento a nova forma de ser devorado pela esfinge.

Em 31 de Maio de 2019, na página de notícias do Ministério da Educação, foi publicada a seguinte matéria: “MEC autoriza a criação de 50 novos cursos superiores de graduação em várias cidades do país”. Para os incautos, isso poderia soar como positivo, mas para quem já acompanha algumas de minhas postagens, no Integração Online, já pode desconfiar que se trata de algo pseudoconcreto, capaz de esconder sua própria essência.

Na matéria em questão, não há nenhum direcionamento para se buscar a publicação no Diário Oficial da União (DOU), que a legitima. Há apenas, como “exemplo”, uma outra publicação do DOU, que se trata da renovação e/ou concessão do Certificado das Entidades Beneficentes da Assistência Social (para aqueles que gostam de ler, é a Portaria nº 234, de 20 de maio de 2019 – clique aqui).

Com um pouco mais de empenho e foco (que não seriam necessários se o governo tivesse a transparência da qual se vangloria), achei as duas Portarias do DOU, referidamente, as Portarias nº 243 (clique aqui) e nº 244 (clique aqui), de 29 de maio de 2019. Embora não seja tão bom em números, como Paulo Guedes, é notável algumas conclusões do pacote de aprovação de cursos superiores. Eles totalizam 54 novos cursos e, ao mesmo tempo, representam as ações implícitas das políticas educacionais atuais.

Dos 54, apenas 2 cursos são de licenciatura. Desses dois cursos da área da educação, que são Letras e Pedagogia, apenas o segundo é em uma universidade pública. Os 52 cursos restantes são úteis à embarcação brasileira, 11 são cursos tecnológicos, 41 de bacharelados. Para aqueles que não compreendem bem, explico: cursos tecnológicos são aqueles que, mais rápidos, permitem a inserção rápida no mercado de trabalho. São cursos pensados para o trabalho, mas performáticos, visando a execução de pequenas tarefas com eficiência e eficácia.

Os bacharelados são cursos mais tradicionais, com um caráter mais amplo do que os tecnológicos. Mas, voltamos ao ponto inicial: a arte de ensinar. Está claro que a guerra de Weintraub é contra as licenciaturas. O caráter pseudoconcreto daquilo que se mostra como benemerência, acaba sendo nefasto: estão criando profissionais hábeis, mas que não estudam as entrelinhas do trabalho docente. Algo chamado notório saber prevalecerá. Em questão de alguns anos, quem lecionará aos profissionais? Ao que parece, para melhorar a educação, estão acabando com a educação. Quase nos moldes dos jogos políticos de acabar com a corrupção, subsumindo as instituições às mãos dos aliados, que arquivam acusações. Não há corrupção, se não há investigação.

Pelo visto, a educação autêntica falhara no enigma da esfinge de Tebas, sendo devorada sem piedade. Mas, ao contrário de Édipo, não estamos nos defrontando sozinhos com ela. Dia 14 de junho, assim como foi o 15 de maio, estaremos novamente fazendo a esfinge questionar o quão difícil será nos devorar por inteiro.

Adonias Luz

Sobre o Autor

Adonias Luz

Mestrando em Educação, na linha de Políticas, História e Organização da Educação, pela Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO). Pós-graduando lato sensu em Neuropsicopedagogia, Graduado em Ciências Sociais, pela Faculdade Guarapuava. Graduação interrompida em Geografia, Licenciatura e Pedagogia: Docência e Gestão Educacional, pela UNICENTRO.