Jornalismo local e analítico

Opinião
| 10 maio de 2019

A filosofia e seus coveiros

O absurdo está se reinventando e procura monstros para justificar sua imbecilidade. Autoridades desautorizadas pelo justo conhecimento enxergaram as Ciências Humanas e, com miopia, acreditam ver a filosofia. O retorno ao primitivismo parece ser a tônica do grupo que acredita dirigir o Ministério da Educação com conselhos de um quase pseudo instrutor de Filosofia que confunde ‘Universidade’ com ‘Perversidade’, a saber, Olavo de Carvalho, que se quer teve condições de ler e compreender o metafísico Étienne Gilson que sentenciou a maior experiência filosófica de todos os tempos: “a filosofia sempre enterra seus coveiros”.

Complementaria a máxima, sobretudo quando seus coveiros são leitores de um único autor ou de um único livro. Desde os tempos mais antigos a filosofia sempre preservou a liberdade e a autonomia para construir novas formas de vida e novos olhares sobre os problemas que nos impõe a ordem dominante, gastando energia em novos estilos de vida que sempre considerou um outro mundo em comum. Quem teve o ócio para ler e compreender Platão e Xenofonte sobre a trajetória de Sócrates, o mestre, vai se lembrar da perversa acusação a ele imputada de corromper a juventude que, na verdade, não era outra coisa senão a reflexão sobre a possibilidade de recusar a submissão cega às opiniões estabelecidas. A subversão da filosofia sempre foi a defesa da livre interpretação, afinal apenas a liberdade é a chave para a verdade.

O que tentam defender os atuais algozes da educação emancipada e propositiva é absurdamente indefensável, pois desconsideram a premissa que antes de sermos técnicos ou profissionais somos seres humanos. Faz tempo que a filosofia e, posteriormente as ciências humanas, tentam qualificar a máxima de que melhorar a si mesmo tem potencialidade para melhorar a sociedade através da arte, da ciência ou da própria política, em declínio neste tempo de obscuridade instrumental e mediocridade.

Mal sabem “eles” que o atual eclipse político tem sido a alavanca para a vitalidade filosófica, sempre renovada com novos fundamentos.

A filosofia, incapturável, é sempre um choque diante do triste empobrecimento da sensibilidade humana neste momento de esclerose múltipla de um governo instituído por um ato de raiva e irracionalidade provisória.

A desintegração está em processo e as pessoas [insensíveis] não percebem os danos irrecuperáveis em curso.  Sem a experiência de sentir e estranhar, próprios da filosofia, vive-se o automático e o novo, abrindo espaço para uma legião de desmemoriados que banalizam o mal com justificativas injustificáveis.  A filosofia sempre construiu a tensão do ‘como não’, ou seja, nunca fazer do mundo um objeto de propriedade, mas sim de uso e, preferencialmente, de um novo uso que vem ao encontro da essência dos seres humanos.

Ora, em sua essência, a filosofia é uma arte de viver, um estilo de vida que compromete toda a existência tornando-nos uma versão melhor de nós mesmos. Assim, mais que uma disciplina com instrumentos metodológicos, a filosofia é terapêutica porque permite-nos a compreensão do sentido e da superação do próprio eu, sempre com novas experiências.  No tempo em que escrevo, o filósofo Agamben, tem nos provocado com um lampejo a pensar novas formas de vida, em reconhecer o sujeito não mais como substância, mas sim como forma, sendo esta passível de transformação, qualificação e requalificação. Faz tempo que Agamben tem defendido a distinção de vida qualificada em relação à vida nua ou vida comum, sujeitada aos inúmeros dispositivos de dominação.  Mais que viver simplesmente, precisamos viver bem. Só a filosofia como um novo suspiro tem potencialidade de nos libertar de prisões invisíveis que o sistema impõe. A filosofia e seu jeito de se colocar no mundo nos emancipa e isto, por si só, atrapalha os muitos dispositivos de dominação em curso.  Ora, apenas a filosofia advoga em favor da vida e o que está em jogo [hoje] é a vida.

É possível uma felicidade diferente, ligada não à realização tão somente  profissional ou instrumental, podendo dar corpo a uma novidade no mundo e isto tem incomodado muito.  A ideia de que a filosofia veio para deslocar a concepção espontânea tem deixado muitos sem dormir, pois quando mais batem, mais apanham.

Claudio Andrade

Sobre o Autor

Claudio Andrade

Doutor em História e Sociedade pela UNESP, Professor Associado do Departamento de Filosofia da UNICENTRO. Assessor do CEFEP/CNBB e Presidente da Academia de Letras, Artes e Ciência de Guarapuava