Jornalismo local e analítico

Frame a Frame

Do contato presencial à cibercultura: um processo de fragmentação da música

Renan Martins – Músico e produtor musical

“Obra” que hoje é “clique”. A revolução tecnológica que vivemos, as mudanças que isso causa nos processos industriais que envolvem a música e a forma como consumimos arte são diretamente relacionados. Ninguém perguntou ao rádio se poderíamos inaugurar as televisões. Ninguém perguntou à MTV se poderíamos inaugurar o YouTube. O fato é que quem não aprender a dançar fica sem par.

Ao mesmo tempo que os músicos e demais artistas ganharam autonomia para gerir suas carreiras da forma que bem entendem, tendo contato direto com o seu público por meio das redes sociais, e o fim da era das grandes gravadoras que decidiam quem seriam os artistas disponíveis para “consumo”, democratizou-se o acesso às artes e sobre quem seriam os emissores delas. Dito isto em cinco linhas, é preciso citar que isto representa uma profunda mudança na vida de muitas pessoas. Quem nasceu após os anos 2000, não viveu época em que se ouvia um programa todo de rádio nas muitas vezes frustrada tentativa de que sua música predileta tocasse. Ou de mandar um torpedo SMS para o programa de rádio dedicando tal música para a pessoa amada. Hoje um clique o separa de uma audição sem compromisso nos alto falantes do próprio celular em alguma rede social para decidir se aquele artista merece sua interação, sua presença em algum show talvez, enfim, se merece alguma relevância neste mercado da música.

Postos os fatos sobre a mesa, esclarece-se o ponto de que hoje a Cibercultura é quem gerencia a cultura de massa, o que antes cabia às rádios, e posteriormente aos televisores. Ao criarem suas playlists nos canais de Streaming (YouTube, Spotify, Deezer, Napster, entre outros), recomendarem a seus amigos e principalmente causando o famigerado hype (promoção extrema de uma pessoa, ideia, produto), as pessoas decidem o que será consumido em alta escala. Vale pontuar que paralelamente a essa natural movimentação da massa sobre o que será relevante para seus ouvidos, essa alta democratização de acesso gera também uma fragmentação que diminui o cuidado e talvez até o respeito com o peso de uma obra de experiência sensorial como é a música. O que antes era para o ouvinte dedicado que comprava o disco de vinil um momento de degustação e de vivência, um momento para se fechar os olhos e se conectar com a alma do artista ou com o recorte de vida ali registrado, tornou-se algo um tanto quanto banalizado. O hype proveniente de conteúdo banal, promovendo bizarrisses por conter alguma graça algumas vezes gera inconsequentemente um desvalor tanto humano aos ouvintes (direta ou indiretamente) quanto profissional aos artistas que buscam dignidade e justamente o inverso: a valorização do momento presente ao experienciar sua obra.

Mas não cabe a indignação, e sim aprender como é o passo dessa dança. Quem quer acreditar nesta empreitada de artista nos tempos atuais a mente aberta para saber dançar com a dinâmica que doutrina o presente que vivemos, e a gratidão por ter a oportunidade de viver esse tempo. E se ainda couber, deixo o incentivo à sensibilidade e observação à profundidade sobre o que se absorve e a responsabilidade sobre o que se espalha para si e para o outro. Afinal, como nesta tal cibercultura, somos uma rede indissociável.