Jornalismo local e analítico

Frame a Frame

Baianasystem – O futuro não demora

Renan Martins – Músico e produtor musical

O terceiro disco do grupo baiano aponta um futuro que vem de dentro

O futuro logo à frente em parte é previsível se olhamos para o momento de agora, e somente uma frase vem ao pensamento quando se lembra disso: “atenção, atenção!”. Atenção e cuidado com você, atenção e cuidado comigo, atenção e cuidado com o coletivo. Toda música, álbum é uma experiência em diversos níveis por si só para aquele ouvinte dedicado, mas o terceiro álbum do BaianaSystem “O Futuro não Demora” é especial quando se trata de percepção. Com arranjos ricos que carecem de calma para serem percebidos em sua desconstrução, toda a energia e intenção movimentada por este grupo têm a visão de construir algo muito maior que o próprio BaianaSystem, como afirma o próprio Russo Passapusso (vocalista) em entrevista concedida à Caetano Veloso.

“Antes de criar uma obra a gente tem que parar tudo junto com essas pessoas e ir pesquisar.” Ao buscar a bênção e a soma de um coletivo é notável a pluralidade de cores expostas neste novo álbum, que nos leva a um passeio pela riqueza de ritmos que traz nossa América Latina: o ijexá, a cúmbia, o reggaeton, o samba-reggae, pagode, entre outros, mantendo sua tradição extremamente dançante e de conexão com o corpo. O resgate e a afirmação da cultura afro-brasileira é uma das marcas do projeto.

Arte: Filipe Cartaxo

Participações

O aclamado coletivo de colaborações conduzidas pelo Baiana são uma escolha de alta sensibilidade, é notável o grande respeito e admiração vindos de sua linha de frente por essas pessoas, consideradas por Russo como verdadeiros mestres. Nomes como Antônio Carlos e Jocafi e seu vasto conhecimento do samba baiano abrilhantam as faixas  “Água” e “Salve”. Manu Chao, grande artista franco-espanhol relata junto ao grupo as veias abertas da América Latina. BNegão e seu dub poetry fecha a caixa de “Salve”. Destaque para a participação da Orquestra Afrosinfônica regida pelo Maestro Ubiratan Marques nas faixas que abrem e fecham o álbum “Água” e “Fogo”, realçando as emoções de quem ouve com todo o romantismo presente em uma orquestra. Edgar, um rapper um tanto quanto peculiar vem se destacando na música popular brasileira com seu jeito especial de cantar de uma forma falada, participou também do novo álbum de Elza Soares “Deus é Mulher” (2018), e na faixa “Sonar” do Baiana traz toda sua tecnologia humana cantada ao lado do excelentíssimo Curumin em um reggae Trojan style todo original, como não poderia ser diferente. A lista ainda se acrescenta em um momento especial do disco: no mantra “Melô do Centro da Terra” cantado pelo Mestre Lourimbau e seu berimbau encantado, a percepção leva a olhar pra dentro de si, e mais fundo, no meio do centro da Terra, que é um útero. O Samba de Lata de Tijuaçu, patrimônio cultural brasileiro entra em cena na faixa “Redoma”, originando a track que se desenvolve em um ragga arretado. Em “CertoPeloCertoh” o rap baiano brilha na voz de Vandal trazendo um peso único ao disco que inevitavelmente flerta com o hip hop também. Por último e não menos importante imprescindível citar algo que seria uma das maiores marcas deste disco que é o objetivo do resgate da cultura baiana do samba-reggae com mestre regente, que no caso foi o Mestre Jackson, mais um ritmo que mais do que em si é uma expressão de liberdade.

A grandiosidade desta obra que tem como linha de frente Russo Passapusso (voz), Beto Barreto (guitarra baiana), SekoBass (baixo) e Filipe Cartaxo (direção visual) nos convida a uma caminhada sensorial de resgate cultural afro-brasileiro, e um olhar para dentro, para si mesmo para perceber o próximo e enfim o todo. “O fogo que queima em você também queima comigo” (trecho de “Salve” e “Fogo”). O resultado de sua produção feita na paz de Ilha de Itapirica retratam esse momento mais espiritual do BaianaSystem, o que contrasta um pouco com o sentimento urbano das ruas de Salvador em seu segundo álbum “Duas Cidades”, mas sem deixar de mostrar a realidade dura e as injustiças que cercam o povo brasileiro.

Com produção de Daniel Ganjaman, o álbum está nas ruas desde o dia 15 de fevereiro de 2019 e pode ser ouvido em todas as plataformas de streaming. Clique no player abaixo e ouça.