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22 mar de 2019

[Editorial Político] A cultura da violência

A tragédia do último dia 13, em Suzano (SP), ilustra a preocupante situação em que o mundo se encontra. O lamentável massacre ocorrido na Escola Estadual Professor Raul Brasil, deixou 10 mortos e 11 feridos, alguns em estado grave. Dois ex-alunos abriram fogo e desferiram golpes de machado contra estudantes e funcionários do estabelecimento de ensino. Para o chefe da Polícia Civil do Estado de São Paulo, Ruy Ferraz Fontes, os assassinos queriam reconhecimento, que conseguiriam, acreditavam na tentativa de igualar a chacina ocorrida em Columbine, no Colorado (Estados Unidos), em 20 de abril de 1999.

Qual o motivo do massacre?

Horas após a tragédia, grande parte da mídia, instigada pelo próprio público, passou a divulgar informações com foco nos assassinos, em busca de responder à questão pessoal pela qual os atiradores foram motivados a praticar tamanha brutalidade. Sim, é importante saber qual foi o motivo, como foi planejado, qual a origem dos armamentos e demais detalhes. No entanto, esse não é um caso isolado, o acontecido reflete uma cultura de violência instaurada.

A sociedade, em geral, deve se colocar como culpada nessa situação. Os discursos de ódio se tornaram comuns e são potencializados, sobretudo, pelas redes sociais. Entre os jovens, principalmente, a forma de socialização abre espaço para conflitos, as soluções se definem mais em violência do que em diálogo. Uma reflexão complexa é tentar definir exatamente o que influenciou os ex-alunos a dispararem contra estudantes em Suzano, mas é possível observar claramente os valores que a sociedade atual tem cultivado.

Armar a população civil é a solução?

A resposta é simples, não! Quando um grupo de parlamentares sustenta a ideia de que armar o cidadão é a solução para evitar massacres como os do último dia 13, significa incentivar a população a fazer justiça com as próprias mãos. Armar a população civil é a tentativa de substituir a obrigatoriedade do Estado em garantir a segurança pública.

Dar ao cidadão o direito de utilizar uma arma de fogo é fortalecer a cultura de violência que cresce mais a cada dia. Armar o professor é uma ideia ainda mais inadequada, professores não precisam de armas, mas sim de valorização e condições dignas de trabalho.

No ponto de vista da estrutura educacional, quais são as propostas efetivas para a educação? Durante o período eleitoral não ocorreram debates de ideias com o atual Presidente, não é possível enxergar nenhum planejamento claro com o objetivo de solucionar os problemas educacionais do Brasil. Tópicos como alterações no Estatuto do Desarmamento são, claramente, mais prioritários para o novo governo.

Games justificam um comportamento violento?

Menos de 24h após a tragédia que comoveu o Brasil, o vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, já havia selecionado um dos culpados pelo lamentável episódio: os videogames. “Hoje a gente vê essa garotada viciada em videogames e videogames violentos. Quando eu era criança e adolescente, jogava bola, soltava pipa, jogava bola de gude, hoje não vemos mais essas coisas”, afirmou.

A teoria do vice-presidente induz a concluir que antes do surgimento dos jogos virtuais a paz reinava absoluta. Hoje o universo dos games movimenta um mercado milionário, inclusive é o ganha pão de milhares de pessoas, com um único objetivo, o entretenimento. É o mesmo caso do cinema, por exemplo, que, verdade seja dita, apresenta narrativas violentas em maior quantidade do que os próprios games. Atribuir o episódio de Suzano a um fato específico é a tentar desmascarar a violenta realidade, o cenário envolvendo os atiradores é muito enigmático para um alvo solitário ser apontado. É preciso menos violência e mais reflexão.

Foto: Ueslei Marcelino