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Cidade, Segurança | 13 jun de 2018 | da Redação

Insegurança marca a rotina na cadeia pública de Guarapuava

Entrevista exclusiva aponta problemas internos e revela detalhes do sistema prisional na cidade

O bairro Batel, local urbanizado próximo ao centro de Guarapuava, apresenta contrastes que são velhos conhecidos dos moradores da região. Um dos destaques negativos do bairro é a cadeia pública da cidade. O prédio é o mesmo da 14ª Subdivisão Policial, existente há quase 50 anos. Além do grande número de fugas, que se repete a cada ano, a cadeia apresenta falta de profissionais, a superlotação de detentos e está com sua estrutura física deteriorada.

Segundo os últimos dados divulgados em 2014 pelo Sistema Integrado de Informações Penitenciárias do Ministério da Justiça (Infopen), o Brasil chegou à marca de 607,7 mil presos. Desta população, 41% aguardava por julgamento atrás das grades. Ou seja, 222 mil pessoas presas sem condenação. A superlotação é um dos problemas em praticamente todos os presídios no Brasil. Dados de 2014 do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) mostram o crescimento gradual da população carcerária no Brasil. Em 2004, o país tinha 336 mil presos. Dez anos depois, esse número quase dobrou, com 622 mil.

A capacidade atual da cadeia pública de Guarapuava é de 167 detentos, conforme a rotatividade, o número chega a 400 presos, por alguns períodos. No mês de maio deste ano, a cadeia comportava cerca de 100 pessoas já condenadas pela justiça, entre homens e mulheres, mesmo sendo um local para presos ainda não condenados. Em 2017, cerca de 30 detentos fugiram da cadeia anexa a 14ª, totalizando a média de uma fuga a cada dois meses. Há mais de dez anos o poder público possui um projeto, que já foi ‘cantado em verso e prosa’, principalmente em campanhas eleitorais, mas ainda não aconteceu algum resultado que tranquilize a população.

A equipe do Jornal Integração teve acesso a informações, de alguém que vivencia o ambiente interno do “cadeião”da 14ª SDP e, por motivos de segurança, não terá sua identidade divulgada. Os relatos trazem detalhes da situação precária do local, da falta de segurança e da atuação de uma poderosa organização criminosa.

Atualmente são aproximadamente 35 agentes (de cadeia e penitenciários) atuando na penitenciária provisória de Guarapuava. De acordo com as denúncias, o local mais crítico da cadeia pública é a parte em que estão concentrados o maior número de detentos, a área masculina. Neste espaço, são duas galerias, 16 celas em cada galeria e quatro camas por cela.

“Os recursos são muito precários, tanto para o manuseio de presidiários, quanto a estrutura da cadeia. As celas das duas principais galerias não possuem mais grades, os detentos arrancaram e utilizam como instrumentos para furar paredes e cavar buracos nas tentativas de fuga. Só existe uma grade que separa as galerias das celas (sem grades), do ambiente de trabalho dos agentes. Além disso, existe um buraco em uma das celas, o que permite o acesso dos presos de uma galeria para outra”, afirma a fonte que terá a identidade protegida.

A ala de detenção feminina, foi feita para 18 mulheres, mas nos últimos meses comportou uma média de 40. A área conhecida como “cela de seguro” foi construída para 15 pessoas, mas a média de ocupação também é de 40 presos, esse lugar tem o objetivo de separar presos que comentaram crimes sexuais, por exemplo, ou que estejam correndo algum risco de morte. Existe uma cela para menores infratores, que lá permanecem no máximo cinco dias até a decisão da justiça, já que o local para infrações dessa natureza mais próximo fica na cidade de Laranjeiras do Sul – PR.

Com as celas sem grades, os agentes e a polícia tem dificuldade para entrar e circular nas galerias, o que facilita o grande número de fugas. Há mais de um ano e meio não é realizada uma operação “bate grade”, que tem o objetivo de revistar as celas e encontrar irregularidades.

“A maioria dos buracos na parede e no chão são feitos com um pequeno fogareiro elétrico, chamado de ‘brasinha’, os presos deixam esquentar por horas sobre onde querem quebrar. Quando a superfície está bem quente, eles jogam agua gelada, o que facilita a quebra de concreto. Tentativas de fuga existem todas as semanas, geralmente os presidiários fazem o buraco de dia para tentar fugir à noite”, revela.

Em dezembro do ano passado, um detento fugiu durante um dia de visita, se passou por visitante e saiu pela porta da frente da 14ª SDP. Para entrar qualquer visita é necessário fazer um registro na própria 14ª, o visitante recebe uma carteirinha. “Em alguns casos entram algumas visitas somente com o RG, com a promessa de que a carteirinha será feita ou de que o visitante é um parente ou amigo distante. Os presos utilizam essa brecha para levar prostitutas para dentro das celas, que devem receber o dinheiro fora da cadeia”, esclarece.

 

Confira uma demonstração de como é e qual a situação da ala masculina de detenção da cadeia pública de Guarapuava. A ilustração é apenas uma simulação baseada em relatos e não corresponde ao projeto original do prédio

Ilustração (Victor Teo)

Organização criminosa

De acordo com as informações fornecidas a equipe do Integração, na cadeia pública de Guarapuava existe a atuação do Primeiro Comando da Capital (PCC), Organização Criminosa que surgiu em São Paulo e alastrou-se por vários estados do Brasil. O PCC é um sistema que tem, entre os objetivos, combater a opressão do sistema carcerário

“Cada membro associado ao PCC paga uma taxa em dinheiro que é revertida para a manutenção dos próprios presos, a organização possui contas próprias e fornece todos os aparatos para quem quer trabalhar no mundo do crime. Para entrar ao grupo, o preso deve ir por livre e espontânea vontade. Quando alguém procura os membros da cadeia local, esses pedem autorização aos superiores que estão presos em cadeias das capitais, por meio de telefone celular. Já para sair do PCC, são dois métodos, a morte ou a igreja. Em Guarapuava, por exemplo, existe uma ‘igreja’ dentro da cadeia pública, comandada pela facção. No entanto, depois que o preso estiver em liberdade, deve mesmo abandonar o crime e terminar sua vida seguindo leis religiosas”, comenta o (a) denunciante.

A última rebelião que ocorreu no “cadeião” de Guarapuava, foi em 2014, com o registro de nenhuma morte. Mesmo sem rebeliões, da metade do último ano até agora, ocorreram três mortes de presos por, supostamente, não cumprirem regras ou serem de gangues rivais ao PCC. Uma das execuções ocorreu por estrangulamento. “Hoje, em Guarapuava, são cerca de 50 membros do Primeiro Comando da Capital na cadeia, o número varia, mas geralmente aumenta”, explica.

Superlotação e dificuldade de controle

A superlotação nos presídios é um problema crônico no Brasil, traz consequências que fogem do controle do Estado, como por exemplo, a entrada de objetos e substâncias que, em teoria, são proibidos. “Entre os presos é comum o uso de celulares, os aparelhos entram escondidos na alimentação, em pedaços de carne, por exemplo. Em uma ocasião foi descoberto, por meio de denúncia, mais de 50 celulares escondidos na parte interna de um freezer novo, que chegou na cadeia para armazenar alimentos perecíveis. Outra vez, encontraram celulares escondidos dentro de uma lata de tinta, em um fundo falso, a tinta havia sido doada para pintar as galerias”, ratifica a fonte que terá a identidade protegida.

A cadeia pública de Guarapuava não possui bloqueador de sinal de celular. Nas revistas em pessoas e objetos, é utilizada uma raquete que detecta metal, mas conforme a situação não identifica alguns ilícitos.

“As drogas, geralmente, entram escondidas no corpo das mulheres. Bebida alcoólica é mais difícil de entrar, mas em alguns casos entra escondida até misturada com leite. Além das substâncias, os detentos desfrutam de objetos como Televisão com sinal digital, vídeo game, churrasqueira elétrica, entre outros”, finaliza.

Desativar o cadeião

Já existiram muitas promessas para remover a carceragem do bairro Batel, mas será que existe um projeto para que isso, definitivamente, aconteça? Em maio desse ano, a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Administração Penitenciária do Paraná (SESP – PR), a qual faz parte o Departamento Penitenciário do Paraná (Depen – PR), afirmou que existe um projeto de construção de um centro de triagem em Guarapuava, para abrigar 500 presos.

Ainda em maio, a governadora do Paraná, Cida Borghetti, esteve em Guarapuava, na Câmara de Vereadores, para o anúncio da implantação do curso de medicina da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro). Na ocasião a governadora confirmou que a unidade prisional seria transferida para uma área ao lado do Centro de Regime Semi-Aberto de Guarapuava (CRAG), em um terreno que foi disponibilizado pela prefeitura da cidade.

A produção do Jornal Integração entrou em contato, por telefone, com a assessoria de imprensa da SESP-PR, que se comprometeu a enviar, por e-mail, uma nota com esclarecimentos sobre o andamento e prazos referentes a mudança de local da cadeia e outros questionamentos de segurança que foram citados ao longo dessa matéria. No entanto, até o fechamento dessa edição, nenhuma resposta foi enviada.



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