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Cidade, Cultura | 7 dez de 2018 | da Redação

A história, o tempo e a cidade

Em entrevista, professor e historiador, Murilo Walter Teixeira, destaca aspectos históricos e curiosidades sobre Guarapuava

Localizada no terceiro planalto paranaense, mas precisamente na região central do estado, onde o solo é constituído da fértil “terra roxa” e a natureza é generosa com os que trabalham duro. Local de quem busca um amanhã melhor e de um povo que sabe ser anfitrião. Guarapuava chega ao seu 199º aniversário em 2018, estabelecido pela tradição, já que a história começou antes, conforme explica a historiadora Zilma Haick Dalla Vecchia, no editorial desta edição. Em entrevista que segue, o professor e historiador Murilo Walter Teixeira destaca aspectos históricos sobre a formação da cidade, como a chegada dos europeus, os personagens importantes para o desenvolvimento e curiosidades sobre o território.

Parque do Lago, região central da cidade. Foto: André Ulysses De Salis

 

Quais aspectos históricos podem ser destacados em relação ao início da história de Guarapuava?

Sem dúvida a participação fundamental de D. João VI, com a emissão da Carta Régia de 01 de abril de 1809, determinando a formação de uma Expedição Real com a finalidade de civilizar os indígenas e povoar a região meridional do Brasil. Desse fato, surgiu nossa cidade de Guarapuava. O contexto da época era de reconhecimento do território brasileiro pela coroa portuguesa.

De que forma foi o surgimento da cidade que hoje conhecemos?

Ações em obediência a uma Carta Régia, escolha do local e instalação da Freguesia de Nossa Senhora de Belém. Um fato curioso foi a redação de um documento denominado de “Formal” que especificava as normas para o povoamento, urbanização e ações da população. Não encontrei essa maneira para iniciar uma cidade na formação histórica dos aglomerados urbanos do Brasil.

: Murilo Walter Teixeira é historiador, professor e membro da ALAC (Academia de Letras, Artes e Ciências de Guarapuava). Foto: Arquivo Pessoal – Murilo Teixeira

Quais os personagens importantes nesse processo?

O Tenente Coronel Diogo Pinto de Azevedo Portugal, comandante da Real Expedição, Capitão Antônio da Rocha Loures, na qualidade de capitão povoador e o pároco Francisco das Chagas Lima. Não podemos esquecer a contribuição dos diversos profissionais que integravam a expedição.

Guarapuava possui uma diversidade de povos e etnias, como foi a imigração e colonização ao longo do tempo?

A partir de 1850 chegaram diversas pessoas à região. Foram francesas, dinamarquesas, inglesas, italianas, sírio-libanesas e polonesas que se destacaram nas mais diversas atividades. Três imigrações organizadas vieram para a região de Guarapuava.  A francesa no vale do Ivaí, dirigida pelo médico Dr. Jean Maurice Faivre, denominada Colônia Teresa Cristina. Em seguida a polonesa em São João do Capanema, hoje Prudentópolis e a de Suábios do Danúbio para o Distrito de Entre Rios, município de Guarapuava. Os italianos que se localizaram em uma colônia no Vale do rio Jordão eram oriundos de Santa Catarina.

Qual a relevância da imigração Suábia na região, especificamente pelo desenvolvimento das atividades agrícolas predominantes até hoje?

Nos cento e quarenta anos que antecede a presença dos Suábios, Guarapuava possuía uma economia extrativista voltada para o comércio da erva mate.  Em seguida com a pecuária, deu origem ao tropeirismo que fomentou o comércio com grandes centros. O casario em estilo colonial que Guarapuava ostentava, surgiu nesse período. A imigração Suábia chegou bem no momento da industrialização local com a extração da madeira. Terceiro ciclo econômico da região.  Esse fato possibilitou níveis de progresso sem precedentes em nossa história, com um aumento populacional apreciável e uma economia diversificada. O País se transformou com construção de Brasília e a presença da Indústria automobilística e principalmente estradas, em nosso caso a construção da BR 277, naquele momento com a denominação de “estratégica”. Não esquecer a presença da ferrovia em nossa cidade no ano de 1954. Surgiram os tratores, caminhões, mais a ferrovia.  Soma-se a esses fatos as famílias Suábias que restaram daquelas quinhentas que aqui chegaram, desempenharam ações das mais significativas pela perseverança, trabalho, conhecimento e tecnologia que trouxeram. Sentimos orgulhoso desse acontecimento.

É correto afirmar que a tradução correta do nome Guarapuava advém do tupi-guarani: guará (lobo) e puava (bravo)”? qual a origem dessa nomenclatura?

Estou distribuindo um pequeno opúsculo com dados sobre o nove de dezembro e temas da municipalidade. Ali transcrevo um texto de meu pai sobre o assunto. No livro “Toponomástica indígena do Paraná”, de Alfredo Romário Martins, encontra-se: Guarapuava – de guará, o cão selvagem, lobo dos espanhóis da época do povoamento de Guaira;  poaba, o rumo, o latido desse animal. Enquanto que o festejado filólogo Rosário Farani Mansur Guérios, sintetiza em seu Português Ginasial: Guarapuava – “latido de guará ou cão do mato”.

Guarapuava possui monumentos, ruas, praças, comércios com nomes que remetem a história da própria região. Como por exemplo “Visconde de Guarapuava”, “Perola do Oeste”, “Atalaia”, “Trevo do índio”, “Estátua Diogo Azevedo Portugal”, entre outros. Qual a importância desses fatos para a valorização histórica local?

Hannah Arendt, diz que o espaço da sociedade é um espaço político, espaço que trás um simbolismo nos discursos dos agentes políticos, sociais, religiosos, culturais, intelectuais que constituem a sociedade. Ruas e praças são espaços públicos comuns à todos. A cidadania é ali praticada na sua expressão maior. Ao nominá-la com vultos históricos considera-se a importância de suas ações e correlações. Os monumentos representam épocas e são meios de preservar a história. No caso do monumento em homenagem ao tenente coronel Diogo Pinto de Azevedo Portugal, representa os 232 atores da Real Expedição Colonizadora que o acompanharam. Quanto a valorização, espera-se que a população reconheça e deseje preservar e divulgar esses ícones históricos.

Existe alguma evidência, ou estudo que explica a tese de que Guarapuava poderia ter sido a capital do estado, por estar localizada no centro do Paraná e possuir extenso território?

Na época em que foi cogitado o assunto, nossa Câmara Municipal se manifestou a respeito. A ideia foi abandonada justificada pela distância e precários meios de transportes. No entanto, deve ser levado em consideração que somente a parte leste do estado é que estava habitado. O restante era selva inculta.

De que forma a população pode integrar-se mais com a história de Guarapuava? Onde é possível ter acesso a documentos, fotos e evidências?

Há documentos históricos importantes, além da Câmara Municipal, o arquivo da Casa Paroquial, da Casa Benjamin C. Teixeira, da Unicentro, nos cartórios e no Fórum Ernani Guarita Cartaxo. Diversas publicações de historiadores e pesquisadores encontram-se nas bibliotecas da cidade e oferecem subsídios históricos. O Instituto Histórico de Guarapuava vem disseminando informações a respeito da história local.

O senhor acredita que Guarapuava possui uma população consciente de sua história? Essa relação pode melhorar?

Sim, aqueles que aqui têm sua origem. Ressalto que o aumento migratório tem sido intenso nestes últimos anos. Certamente essa população desconhece o passado histórico da cidade que lhe hospeda. Os acervos históricos, museus e entidades afins proporcionam oportunidade aos interessados. A história de Guarapuava é ensinada na educação básica municipal. Poder-se-ia incluir questões sobre a história local nos vestibulares da cidade.

Com o desenvolvimento de novas tecnologias, o senhor avalia que a história atual da região está sendo bem registrada para ser estudada futuramente?

Tenho me empenhado na conscientização de autoridades e responsáveis por documentos históricos em preservá-los através da microfilmagem. Uma das atividades do Instituto Histórico de Guarapuava reside na preservação e divulgação da história de Guarapuava. Seus componentes o fazem regularmente.

Área rural no distrito de Entre Rios, um dos maiores produtores de malte e cevada da América Latina. Foto: André Ulysses De Salis



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